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Um e (não) todos - a singularidade do sujeito psicanalítico.

  • Foto do escritor: Narayan Lima da Silva
    Narayan Lima da Silva
  • 30 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 5 de jan.


A premissa marxiana de que toda relação humana é resultado das relações de produção e reprodução da vida - ainda que não exclusivamente, mas primordialmente - me coloca a pensar, como a singularidade que a psicanálise lacaniana apresenta se faz possível.

Antes de falar da psicanálise em si, vale divagar um pouco.


Na sociedade capitalista da segunda metade do século 20 e agora no século 21, muito se fala da valorização do indivíduo contra uma homogenização que seria reflexo das experiências socialistas da extinta URSS. Acredito que muitos adultos de minha geração tiveram algum professor que preferiu palavras como: "se a URSS tivesse ganhado a Guerra Fria hoje todos nós vestiríamos cinza", ou qualquer coisa de ridícula similaridade. Tal acepção considera a (de fato) horripilante URSS de Stalin como início, meio e fim de todo um processo que iniciou-se num contexto muito específico um século antes, e de toda literatura sobre (e anti) o capitalismo, e não considera nem mesmo, a interessante troca de cartas entre Lenin e Rosa Luxemburgo sobre os trabalhadores do campo no começo daquele mesmo século ou a experiência da comuna de Paris, no final do século anterior. Enfim, seja como for, na sociedade capitalista pós moderna a defesa do indivíduo é soberana, ainda que este indivíduo seja também, em última instância, um produto: para além da venda da própria força de trabalho, nota-se que a liberdade, as supostas ideias autorais, as identidades (também a que se julga universal) são, por fim, "compradas" num vasto catálogo de mercadorias, ainda que "quem as vende" ou como são produzidas não seja evidente, bem como que quem as compre, não se saiba nesta posição. Mas isto não é novidade, uma vez que o capitalismo necessita do fetiche da mercadoria como sustentação.

Por conseguinte, o modo de produção capitalista se apresenta como necessário para a existência de um indivíduo que pode, supostamente, ser e viver como bem quiser. Paradoxalmente, para se manter, o capitalismo necessita que todos os países (ou a sua maioria) vivam e façam as mesmas escolhas num ciclo de produção global e quem se coloca a parte ou em oposição, é, sumariamente, penalizado ou aniquilado.

Não há como não reparar que as experiências de coletividade humana pré capitalistas são diferentes, seja no feudalismo europeu, ou em agrupamentos com diversas organizações políticas na África, Ásia e América. Em todas estas especifidades há algo em comum: é preciso sobreviver e viver, e para tanto, organiza-se em grupos, sejam pequenos ou grandes, com um líder, vários líderes, sem líderes, não importa, em todos os casos, necessariamente, se produz a partir da matéria e se organiza relações sociais advindas deste "trabalho".

No campo do "viver" há uma forte relação com a "história", o conto, o causo, a tradição, a cultura, o relato do que passou. Benjamin dá devida atenção a este fenômeno, circunscrevendo no território europeu, quando escreve sua pequena tese chamada "O Narrador". Ele nos mostra como a primeira guerra mundial - como fenômeno do avanço das forças produtivas - deu fim a experiência da narração de vivências, mas também como esta guerra marca o fim da experiência em si. É curioso que seja possível pensar que a colonização e a catequização nas Américas compõe forte campanha contra um narrador benjaminiano, que sem sabê-lo viveu antes daquele período de exceção.


Dando fim a divagação, mas sem prescindi-la, falemos de psicanálise agora.

A constituição do sujeito para Lacan é fundada na condição de ser falante. É preciso que se adentre a linguagem (não necessariamente a fala) para que, um significante inicie a cadeia. Tal significante, por sua vez, é tomado de "empréstimo" do laço social e posteriormente apagado, perdido para sempre. Pego de partida duas indagações dirigidas à mim por pessoas diferentes:

  1. Se assim é a relação entre sujeito e significante, como fica a ontologia, já que ela parece "ir para o espaço"?

  2. Se o bebê elege um significante isso não pressupõe uma alteridade prévia nele?

Eu gosto tanto dessas perguntas, que agora, ao escrevê-las, me ocorrem como possível tema de doutorado, num futuro, que quem sabe terei vontade de fazê-lo (e quem sabe nomeá-lo de "O estruturalismo próprio de Lacan ou a Não-Ontologia do Sujeito", risos). De todo modo, recordando-me de como as respondi tento trazer a resposta mais próxima possível de como as formulei nessas duas ocasiões diferentes.

Sobre a ontologia, penso que ser "largada no espaço" é algo bem preciso com a teoria lacaniana, que apesar de não atentar ao termo em si, se preocupa em não criar uma essência do sujeito. A estrutura em Lacan será demonstrada como lógica. Agora acrescentando a responta que dei anteriormente, digamos que não há uma definição glossaria do sujeito, porém se lembrarmos que Lacan conceitua inúmeras vezes que o significante é aquilo que representa um sujeito para outro significante, podemos em retroação, afirmar que o sujeito é aquilo que se apresenta apenas entre significantes. O significante que Lacan aprendeu de Saussure, mas o diferenciou, não possui um significado isoladamente, pelo contrário, somente adquire significação quando em relação a outro significante. O sujeito, então, por inferência, também não possui significação própria, a mesma só pode ser aferida na significação significante.

Quanto a segunda pergunta, a presença do laço social como a "chuva de significantes" que se apresenta a um "ser de necessidade"ajuda a desconsiderar uma alteridade primeva. É importante dizer também que, ao passo que Lacan não quis criar uma ontologia do sujeito, também não o localiza como determinado. O filósofo Robert Kurz critica "a estrutura sem sujeito" quando a entende como determinadora de uma sujeito que então não fala, mas é falado, não pensa, mas é pensado, etc. O que ele não considera, assim como meu colega que formulou a questão não considerou, é a relação dialética entre "escolha" e laço. Só é possível escolher e vir a "ser" porque há laço, e só é possível o laço social porque há escolha.


Voltando a minha questão, como se dá essa singularidade na psicanálise lacaniana?

O singular não é o indivíduo. O sujeito não é o indivíduo. Tão pouco ele é o coletivo. O singular é a pura diferença. O sujeito é condição de significante assim como é causa de uma cadeia que permite a significação entre eles. O sujeito é a escolha que não se sabe.

De certa forma isso também é afirmar que aquilo que nos faz autênticos é justamente o que está perdido e inacessível. O que uma análise produz, com sorte, é um entre, que é meio solidão, meio dizer.


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