top of page

Valor Sentimental (Neurótico)

  • Foto do escritor: Narayan Lima da Silva
    Narayan Lima da Silva
  • 6 de fev.
  • 4 min de leitura
Edição feita a partir de poster original.
Edição feita a partir de poster original.

Uma curiosa contradição presente nas neuroses é que, ao tentar não sofrer, se sofre mais. Esta é uma observação clínica, teórica e que também o é no campo cinematográfico. Quero destacar esta "curiosa contradição" de cenas específicas do filme Valor Sentimental de Joachim Trier.

Antes de prosseguir, saiba que este texto contém spoilers.

Não se trata nas palavras que se seguirão, uma interpretação da obra enquanto arte audiovisual. Antes, o intuito é pegar de empréstimo um trabalho artístico e servindo-se dele, falar de uma outra coisa. Pois bem...

Valor Sentimental conta a história de duas irmãs, Nora e Agnes, e a relação com o pai, que cada um tem. A história é contada, majoritariamente, sob o que se supõe da perspectiva de Nora, nunca é ela por si mesma, mas sim uma narradora misteriosa que diz dela. É um recurso interessante, sabemos o que ela sente e pensa ou supomos que pensa e sente assim? O que sabemos é que ela diz pouco, e quando tem a chance de falar em primeira pessoa, fala do outro.

Como admissão à universidade, ela precisa escrever uma redação em que relate uma experiência de sua história pessoal pelo ponto de vista de um objeto. Ela escolhe A Casa, que durante todo o filme, é como uma entidade, e a partir deste objeto ela nos diz que A Casa que vê o pai partir e voltar algumas vezes em decorrência de brigas com a mãe, um dia vê ele partindo de vez. A Casa sente falta dele. Note, ainda que a perspectiva fosse do objeto, a casa poderia dizer que viu Nora sentindo a falta do pai, porém não é isso que escreve, e a escolha feita naquela redação nos diz muito de como a personagem lida com a relação parental.

É, então, durante o aniversário de seu sobrinho, que juntos, Nora, a irmã e o pai, tem uma conversa muito precisa sobre a questão da neurose que quero destacar. O pai, em referência a uma atriz com quem trabalha diz: "É difícil ser atriz. Não decidem nada, são reféns do desejo dos outros (...) eu nunca me casaria com uma atriz". Nora, que também é atriz (não do cinema, mas do teatro) retruca de prontidão: "Preferiria levar para cama". Ele solta um riso debochado e acrescenta que os atores atuais são pequeno-burgueses, que não se pode escrever um Ulisses tendo que levar um pirralho ao futebol, que um artista deve ser livre e deve permanecer livre. Nora pergunta, de maneira um tanto retórica, se a questão é não ter filhos. A irmã a olha em desaprovação, sem dizer nada. O pai nega, pergunta a idade de Nora (pergunta também retórica) e menciona a ex-esposa (mãe de suas filhas) que naquela idade já havia tido duas crianças. A irmã então, fala, numa tentativa de mediação, que parece ser seu enlace nesse "triângulo amoroso", os tempos mudam, ela diz. O pai, então, talvez por efeito dessa intervenção comenta que ambas as filhas foram a melhor coisa que lhe acontecera. Nora, incrédula e irritada começa a se queixar, "a gente mal se via", "você não nos conhece", e Agnes, intervém mais uma vez, agora em defesa do pai, afirmando que a fala da irmã é um exagero. O pai se dirigindo a Nora mais uma vez, solta uma frase bastante interessante: "Você passou por momentos difíceis, eu também passei. Mas você tem tanta raiva. É difícil amar uma pessoa tão raivosa".

A queixa de Nora não é sobre o presente, mas sim sobre o que aconteceu. A tentativa de conciliação e aproximação, como o convite para estralar o novo filme do pai, não serve. A questão para ela é que como foi não deveria ter sido. E neste ciclo sem fim de mudar o passado, sua ambivalência entre o desprezo ao pai e a desesperada tentativa de aprovação dele, a mantém no mesmo lugar: no sofrimento. Ela não consegue, não suporta aceitar que as coisas foram como foram. A reminiscência e a raiva são seus meios de lidar com o passado. O pai, por sua vez, também lida com o passado ao seu modo: criando um novo filme. Ele o escreve para Nora, como confessa na primeira vez que fala a respeito. Escreve tal filme, também, para lidar com a morte da própria mãe, que suicidou-se quando ele era pequeno, mas neste caso, afirma esta relação pela negação, sempre que pode, "não é sobre minha mãe".

Na cena final do filme, sustenta-se a dúvida de que Nora esteja levando o mesmo destino da avó ou que esteja encenando para o filme de seu pai, mas é no momento mais tenso, do ato em si, que notamos que a segunda hipótese era a verdadeira. Nora olha para o pai, agora que as câmeras se afastam, os olhos marejados, e ele, estarrecido pela força da cena, pela força de suas relações, fica imóvel por alguns segundos, mas, quando move o olhar em direção à filha, de maneira muito sutil, sorri. Nora sorri de volta. E eles aceitam.

Comentários


bottom of page