O Ente Cérebro e a Morte da Experiência
- Narayan Lima da Silva
- 26 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 31 de mar.
Benjamin chamou de fim da experiência uma nova forma de miséria que se presentificou com o advento técnico da Primeira Guerra Mundial. Eu chamo de "cerebrização da vida" a sua perpetuação. Os combatentes não voltavam ricos de experiências, de histórias a contar, pelo contrário, voltavam silenciosos, ainda mais pobres em experiências comunicáveis. O filósofo considerava que, diante do desenvolvimento da técnica, culminante na guerra, já não havia mais narradores entre os vivos, aquele que recolhe experiências de longe, de tantos outros e que retorna à casa, misturando-as com as suas próprias. O processo de "cerebrização da vida" também elimina os narradores, a capacidade de dizer de si, de escutar o outro. Essa pobreza não é apenas de experiências privadas, mas também de experiências da humanidade. Assim, a nova miséria do século XX não é a aspiração por novas experiências em detrimento das ancestrais, mas sim, o desejo de libertar-se de toda experiência. O século XXI também sustenta esse desejo.
Se a experiência já estava morta na primeira metade do século passado, exumaram os ossos de seu sepultamento na atualidade. A técnica pós-moderna que não é mais a industrial, nem tampouco a militar, apresenta-se numa difusão discursiva: ela é antes um discurso de mercado, que como um nariz mole, pode ser entortado para todo tipo de conveniência. Todos os acontecimentos sucumbem ao discurso de mercado vigente que não abre espaço para os narradores, preconiza, em contrapartida "narrativas" únicas ou binárias, em que a pergunta não precisa ser feita para que de antemão existam respostas certeiras.
No entanto, se a história se apresenta primeiro como tragédia e depois como farsa, não precisamos mais de "combatentes silenciosos" para não transmitir experiências. Basta que todos falem, de prontidão e ao mesmo tempo, não suas histórias, mas suas certezas absolutas sobre cada efêmero acontecimento privado e social. Sustentados pela liberdade de expressão, a democracia neoliberal e seus diagnósticos psiquiátricos, os agentes da pós-verdade encontram-se identificados em todos os cantos diante do fenômeno do "zumbi da experiência" (isto é, aquilo que já está morto, mas se levanta como vivo), desde a ciência até as redes sociais - que do ponto de vista do discurso, hoje pouco se diferenciam em seu positivismo. Considerando as respostas prontas, as certezas absolutas e o positivismo, que seguem o discurso de mercado, é possível inferir, então, que a morte da experiência é também a morte da dialética.
A dialética não se preocupa em solucionar uma contradição, ela a enfatiza, visando o estranhamento da antinomia que se esconde na normalidade do discurso. Neste sentido, ela também é avessa das respostas incontestáveis, da identificação totalizante, da redução, a reificação das singularidades e coletividades humanas.
No âmbito da redução, é aqui que quero me deter, em especial, aquilo que diz respeito a "vida privada". O discurso da vida privada, quando se apresenta como fragmentação do discurso de mercado, reduz ao máximo os ditos sobre as vivências diversas. Isso se dá, como um querer dizer de si, que tem como base, um Discurso de Mestre autorizador. Já vimos isso acontecendo sob o aparato religioso, mas o novo operador, é um suposto garantidor científico. Agora, tudo pode ser encontrado no cérebro, carregando junto um selo de autoridade: cientificamente comprovado. Muito se diz ao passo que sentidos se reduzem ao sentido único, dizeres que são sempre afirmações imperativas.
A extravagância da redução ao cérebro se alastrou na fala comum. Todos sabem dizer de si, mas nada transmitem. Não importa mais a receita de bolo, passada de geração em geração, vale mais aquela que "segundo a ciência" vai garantir que o bolo cresça mais. Também pouco importa se perguntar porque você não termina o namoro com aquele imbecil, pois já foi definido, previamente, que é assim que seu cérebro quis, segundo a expressão de seu transtorno. Ninguém mais conta que teve um sonho estranho, o que conta é que o remédio causou esse efeito que é normal e logo se estabilizará. Não importa porque se identifica com tal diagnóstico após assistir um vídeo no Instagram, muito menos se questionar se deve acreditar em suas próprias identificações. Não importa qualquer dúvida sobre o que se julga saber de si, sobre o outro, sobre do mundo. As perguntas não importam porque o cérebro, antes, já tem todas as respostas. A redução da vida ao cérebro, ou "cerebrização da vida" como prefiro chamar, não só elimina o caráter das escolhas, da história, das responsabilidades, o reconhecimento das identificações sociais, mas também cria, como um efeito colateral, uma entidade cérebro que se separa do humano, um ser totalizante ao qual a condição humana não pode nada a não ser se submeter.
Este ente cérebro já não é mais a coisa biológica, ele é o discurso. Promove um lugar de identificação, de saber alienado, ao qual todos podem se reconfortar. A proliferação de diagnósticos "mentais", por exemplo, camuflam, o avanço da técnica e seus impactos sociais, uma vez que, tudo se reduz a como seu cérebro funciona, não precisamos criticar as terríveis consequências que scrollings infinitos causam, ou dizer da frustração ao perder o foco de um filme quando interrompido por diversas propagandas, pelo contrário, como esta lógica parte do próprio discurso de mercado, basta nomear os efeitos que lhe causa sob o nome de um novo transtorno, indicar como tratá-los por meio de medicação e quem sabe oferecer uma rede social nova que "faz bem a saúde mental" ou até mesmo, um serviço premium que você pode adquirir para minimizar os estragos. Deste modo, a técnica, sob o discurso de mercado, segue imune a qualquer transformação.
Em meio a isso, a psicanálise faz o absurdo: suspeita. Assim como a dialética, ela se ocupa com o que tem de "deformado" no discurso. Ela sabe que toda identificação é ao significante, que antes de estarmos doentes da mente, estamos alienados à linguagem. Diante dela, a psicanálise faz uma ridícula e espantosa intervenção que há muito se perdeu, ela pergunta. A criança tapa os ouvidos na escola e as professoras cochicham entre si que talvez seja autismo, que seria bom avisar a mãe para que a criança possa ser "laudada". A psicanálise pergunta "por que tapou os ouvidos?" e os demais se espantam quando a criança responde "é porque o fulano passou a manhã toda chorando alto do meu lado". Intervir sobre a fala abre o sentido antes que ele possa se reduzir.
A psicanálise, ainda que vise uma redução de sentido, nada se relaciona com a unilateralidade do avanço da técnica. Não encontra em seu horizonte um sentido único, a grande "verdade revelada", pelo contrário, revela que "não há". Nada, nenhum significante, seja dado pela ciência, pela religião, pela política, pode servir de totalidade para dizer do que se é. A direção é, portanto, na aposta de que em vez de encontrar saberes inquestionáveis sobre si, respostas a todas estranhezas, é no fracasso da palavra absoluta que a experiência pode germinar. A psicanálise, antes de ser uma solução para a morte da experiência, se manifesta como seu contraponto.

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